sexta-feira, 18 de junho de 2010

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ávidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


José Saramago

3 comentários:

Patricia Scarpi disse...

Olá querida.
O mundo perdeu um grande escritor, mas ele vai estar eternizado nos livros e na memória daqueles que apreciam uma boa leitura.

Tenha um ótimo Domingo

BJS

trapalhices disse...

Claro que sim Patricia.
Uma boa semana.
Beijinhos

Bijoyce,Lda. disse...

Vim retribuir a visitinha...Realmente um mundo perdeu um gd escritor q vai ficar p historia.Bjinhos gd!!!